Dificuldades, desafios e novos olhares no estudo da anatomia

Atualizado: 25 de Set de 2019


Lembro-me do primeiro dia que entrei em um laboratório de anatomia, em meados do ano de 2001. A ansiedade dominava a cena. Havia uma certa tensão no ar. Entretanto, tudo ficou mais fácil quando iniciamos os trabalhos. O exercício da prática foi lentamente se transformando em curiosidade e os detalhes começaram a ficar mais nítidos, suficientes o bastante para perceber que não seria uma tarefa fácil estudar aquela tal de Anatomia Humana.

Lentamente fui deixando o medo abandonar minhas mãos trêmulas, para os sentidos inundar os neurônios com informações nunca antes experimentadas, deixando qualquer sistema límbico em polvorosa. É assim que acontece, uma espécie de analgesia que sobrecarrega os sentidos e aguça as ações simpáticas. Por isso, as aulas práticas de anatomia causam tamanho impacto. Ela literalmente mexe com você, altera os sentidos e as experiências se tornam mais claras, com um "sabor" diferente. Você nunca esquece!

Da ótica de quem ensina, as expressões de medo, angústia e espanto, resultado inequivocável das contrações coordenadas dos músculos da mímica, retroalimentam (feedback) o educador, motivando-o a provocar, induzir o medo e reações inesperadas aos alunos. Costumo dizer para minha filha que o "engraçado" só é quando os dois estão rindo. Muitos alunos expressam sentimentos reais de aflição e insegurança, que devemos como professores sermos responsáveis por resguardá-los, de modo que possamos posteriormente acessá-los, cuidadosamente, por meio do relacionamento interpessoal entre professor e aluno. Não é tratar ou curar como um especialista em doenças e transtornos mentais ou psíquicos, mas aproximá-los de reconhecer e identificar a si próprios, na tentativa de refletir sobre suas próprias limitações, que podem se revelar como obstáculos do processo de aprendizagem.

Na tentativa de identificar certas dificuldades intrínsecas e individuais dos alunos, aproxima-mo-nos deles, de modo que a maneira como ensinamos e abordamos a disciplina torna-se tão importante quanto o conteúdo da matéria.

Isso é uma barreira quase que intransponível no início da carreira de um professor de anato-mia. Livrar-se das amarras de uma abordagem conteudista que impregna a sua representação de ser professor, o modo de fazer e de transmitir o conteúdo da mesma maneira como lhe foi transmitido.


O estudo e o ensino da anatomia tradicionalmente ocorre a partir de duas disciplinas separa-das na grade curricular: o estudo teórico e o estudo prático. Dessa forma, se você (aluno) não for aprovado em uma disciplina (teórica ou prática) não será aprovado na outra. Loucura né! Mas é a realidade para muitos estudantes. Assim uma funciona como pré-requisito da outra, em muitos cursos. Entretanto, em alguns cursos isso não acontece, depende da ementa e da estrutura curricular de cada graduação. Tanto o educador como o educando devem enfrentar juntos as contingências de dois "mundos" diferentes que se completam e entrelaçam mutuamente e de forma concomitante.

"O estudo teórico ilumina a prática, assim como o farol aponta a direção para os navegantes inexperientes".

Deve ser por isso que ela, a aula teórica, é a primeira aula a ser ministrada para os alunos no início do curso. Será que isso realmente funciona? Não o bastante, todos nós devemos saber como lidar com os desafios de uma vida acadêmica que de tão previsível é imprevisivelmente inesperada, coalhada de aventuras incomparáveis que alimentam a alma e a vontade de aprender; um processo contínuo de reelaboração das práticas de ensino, visando a melhoria do processo de aprendizagem.

A linguagem é um outro desafio que nos atinge em cheio, é um convite para aprender um novo idioma, com palavras que a princípio são quase que impronunciáveis. Aprendi a buscar sentido e significado desde cedo para essas palavras estranhas, capazes de travar a língua e corar o malar da face. Isso só foi possível a partir do auxílio de instrumentos e recursos didáticos, tais como: livros, vocabulários, dicionários, listas terminológicas etc. Isso me ajudou mui-to, o que facilitou a memorização de diversos termos anatômicos por meio do simples pro-cesso de associação, permitindo armazenar e resgatar facilmente palavras e seus respectivos significados. Seria como organizar uma vasta biblioteca que, depois de um furacão, deixou cair todos os livros no chão. O estudo e a compreensão dos significados dos termos anatômicos ajudou-me a organizar os livros dessa biblioteca mental em ordem alfabética. Isso foi maravilhoso na época.

Lembro-me do significado da palavra aluno que aprendi na pós-graduação: Substantivo latino Alumnus, de criança de peito, que está sendo alimentada e que necessita de nutrição, não confundir com A de ausência, negação e Lumen, de luz. Então tive que reelaborar um concei-to que achava ter aprendido no passado, no exercício da prática docente, de que o aluno seria um indivíduo sem luz e que nós, professores e mestres, seríamos os detentores da luz do conhecimento e iluminaríamos as mentes opacas dos alunos. Tive que reelaborar e aprender novamente, em um processo constante e permanente de ir e vir. Conclui que o(a) aluno(a) nunca poderia ser um indivíduo sem luz, sem saberes, pois cada indivíduo é único e traz consigo uma bagagem de vida, que também nos ensina, acrescenta e ilumina.

Mas isso não é Anatomia, ou é?

Revisão: Ilza Horaida Santucci Vivas de Moraes

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